quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Uma menina igual a mil (versos)

Há uma amendoeira que beira a minha janela, alegrando os que conversam na sala com o seu remexer. Tentei homenagea-la em versos, sabendo que versos são difíceis e que nunca os havia feito antes. Ficou algo assim:

Um menina igual a mil

Uma menina igual a mil.
Que dorme e amanhece só.
Igual a tantas no Brasil.
Seu silêncio desata tanto nó.

Ah!... quem me dera
Se, do canto da minha janela,
a minha bela tivesse língua para falar
Falaríamos por horas.
Jogaríamos conversa fora.

Olhando da janela
No meio da noite e do luar
O Alec, a Olivia e a Ella
Vêem o seu rebolar

Ela não se veste
Nem se despe por igual
Envelhece como a gente
E quando começa a ficar quente
Renasce triunfal

Em noite ao carnaval
Os bêbados a usam como banheiro
Não faça isso, companheiro
Ela agüenta até vendaval

Esta é a história
Do meu bicho de estimação
Com suas folhas em forma de coração
Às vezes verde
Às vezes amarelo
Se andasse a pé
Andaria sempre de chinelo

Minha companheira.
Minha amendoeira

sábado, 4 de outubro de 2008

O nó invisível

Ele era o que chamam de um bom partido. Homem das letras, viajado e culto. Em termos de beleza, podemos dizer que não era de todo feio, agradando à maioria das mulheres. Ela era uma mulher alternativa. Arquiteta de feição forte e cativante. Atraente. Afeita a musica e ao cinema, características que ele tanto apreciava. Apaioxanada pela literatura francesa, em especial O Estrangeiro de Camus e As Empregadas de Racine.

Depois de algumas saídas, entretanto, percebeu-se que embora os dois se curtissem, isto é, curtissem a companhia um do outro, a ponto de ficarem conversando por horas até pegar no sono no sofá, lhes faltava um tipo de sentimento necessário para fazê-los se apaixonarem. Os encontros eram alegres e em sintonia. Bebiam, comiam, conversavam sobre tudo. Ela achava no The National uma lembrança do Jim Morrison, enterrado no cemitério Pere Lachaise, e não acreditava que o show seria empolgante. Ele escutava tudo sobre a banda, como se ela falasse de uma forma que refletisse as emoções que ele não sabia sentir. Falavam sobre Mallu Magalhães, Caetano Veloso, StereoLab e o mais novo Marcelo Camelo. Convidavam-se mutuamente para shows e programas, sem no entanto se beijarem. Não que não acontecia, acontecia, mas não era sempre. Acontecia uma vez ou outra, como que para premiar um dia perfeito ou para suprir uma carência ou uma fase de secura de um dos dois. Faziam-no mais pela conseqüência natural das coisas do que pela vontade imperiosa de o fazerem.

Muito embora se possa acreditar que este tenha sido um encontro de duas pessoas – e o foi –, como amantes foi, sem dúvida, um desencontro. Dizem por aí que os desencontros da vida são sempre culpa da ausência de uma tal “química” entre um homem e uma mulher, que tende a não aparecer, mesmo quando não há nada de errado naquela mulher ou naquele homem ou mesmo quando aquela é a mais bela das mulheres ou aquele é o mais inteligente dos homens.

Não. O amor, aquele sentimento que sabemos definir até que nos é perguntado, como o tempo ou a felicidade, não é produzido pela mútua contemplação da face ou da cor dos olhos. O amor é oriundo e resulta não da forma, isto é, da atração física, do exterior, mas de uma afinidade de substância, de matéria, de conteúdo. Daí talvez a explicação porque tantas vezes que conseguimos finalmente sair com a mulher que sempre desejamos, de uma beleza perfeita, perde-se a graça tão logo a conquistamos. A beleza cansa. A forma, sem a matéria é o livro de capa bonita e texto chato. A forma não influência nem minimamente na atração – animal – que faz um corpo sentir a necessidade imperiosa de se unir com outro (necessidade imperiosa de ficar junto e não atração física oriunda do tesão momentâneo devido a alguma carência ou ao teor alcóolico da caça).

Esta necessidade imperiosa de se unir, o encaixar perfeito dos dois corpos, o conforto entre eles, o apoio que a costela dá ao braço e que o outro braço dá a cabeça, significa que no corpo “daquela” mulher existe uma substância que, com implacável ânsia, identifica no corpo “daquele” homem uma outra substância com ela compatível.

E a “química” é justamente isto: a compatibilidade de dois corpos que se unem e cujo elétrons e eletrodos nascem em certos indivíduos quando encontram certos outros do sexo oposto.

A existência dessa tão almejada química não é sinal de que haverá na relação daquele homem e daquela mulher o amor eterno. O amor eterno é mais complicado do que isso. Aos fracos, nele influenciam a classe social, a perspectiva futura, a moral. Digo aos fracos, pois este tipo de influência só afeta aos inseguros, preocupados em agradar ou não desagradar alguém. Aos fortes, tais sentimentos não os atinge, daí porque se vê, para infelicidade da família, um moça linda, de estatura social altíssima, apaixonada pelo homem simples que tocou-lhe o coração.

Mas, existindo química e não o amor, seja por qualquer razão, a química se transforma numa corrente invisível presa ao calcanhar, o nó que imobiliza, e não permite que um corpo vá adiante e dê espaço para os seus elétrons iniciarem comunicação com os eletrodos de um outro corpo.

Assim, da mesma forma como se busca a química para viver um amor, ao encontrá-la, sem encontrar o amor, se esforça para perdê-la a fim de desimpedir o corpo de ir adiante quando o amor não se realiza. Sente-se raiva “daquela” pessoa quando o tempo passa sem que a corrente se solte, mas isso é só pra provar que a raiva e o amor nutrem na mesma emoção.

E talvez seja isso justamente o que tenha acontecido com aquele homem ou com aquela mulher. Ele sentindo falta dos eletrodos de uma certa mulher. Ela com a necessidade de suprir os elétrons de um certo homem. Ele lembrando do momento em seu quarto quando nas costas daquela mulher seus dedos deslizavam até o final da espinha e chegando lá se separavam lentamente como o navio sai do porto até a ponta do dedo voltar a sentir (e a causar) os choques do toque no reencontro do calor da pele na direção oposta. Ela lembrando do beijo salgado na praia – como é bom o beijo do verão carioca – que dava naquele homem antes de seguirem pelas ruas de Ipanema e almoçarem no Gula-Gula com direito a suco de tangerina e mousse de gorgonzola.

Sentiam falta daquela mulher e daquele homem que lhes supriam em tudo, menos em determinada coisa que os fez separar. E talvez o amor, o amor eterno, aquele sem ponto final, do encontro entre dois corpos, com química e com ânsia implacável, com conforto de um envolto do outro, seja o apaziguar integral da ânsia pela calma que só o encontro pode passar.

Enquanto não se encontra o amor eterno, ficam aquele homem e aquela mulher separados pela pressão da mente sobre a química. A única coisa os resta é sorrir e refugiarem-se na inteligência, que simulará indiferença até encontrarem em outro corpo aquela compatibilidade de substância que será a chave da corrente. Tudo isso sem pressa, pois não se pode apressar o amor. O amor será sempre amável.

domingo, 28 de setembro de 2008

Fernando Pessoa

O menino mais novo esteve em Portugal e lá comprou um livro de poemas de Fernando Pessoa. Neste livro, chamado Mensagem, se viu diante de um texto brilhante que trata a Itália, não como a bota da Europa, mas como cotovelo, e Portugal,como seus olhos, fitando o Ocidente, futuro do passado:

"O Dos Castellos

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em angulo disposto.
Aquelle diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal."

(Pessoa, Fernando; Mensagem. Parceria Antonio Maria Pereira, Lisboa, 1934, p. 15.)

sábado, 27 de setembro de 2008

A meus amigos Capitu e Bento

Não é estranho que Capitu e Bento tenham se conhecido e imediatamente grudado um no outro. Primeiro como amigos e depois como namorados. Hoje, se casam. E pensar que tudo começou alguns anos atrás, na sala de aula da matéria “o libido na política internacional” da faculdade de Relações Internacionais, quando Bento, inspirado pelas lições aprendidas, pediu a Capituum lápis.

A ingênua pergunta escondia a tentação que Bento tinha por baixo da pele, o tremor quando olhava os negros e oblíquos olhos de Capitu. Foi justamente naquele momento que trocaram as primeiras palavras. Capitu, com sua forte personalidade e cabelos mechados, olhando o moço que lhe pedira um lápis, de corpo magro, lhe disse: “Desculpe, mas só tenho caneta.” Pedro gamou de vez. A caneta lhe serviu. Não só para a prova, mas para anotar o telefone de sua amada, que na época tinha namorado.

Bento sabia que teria que controlar seus impulsos. Muitas vezes, quando passavam o dia juntos, Bento não resistia e se aliviava ao chegar em casa. Às vezes, alivia-se no sonho. No sonho de Capitu beijando-o. O contato, os esbarros dos ombros quando andavam lado-a-lado pareciam dar choque em Bento. A tensão dos pequenos segundos em que os dedos, ou os ombros, se tocam revela a tensão sexual que muitas vezes a mente tende a esconder ou enganar. Não importavam os esbarros, Capitu era sempre controlada e falante. Justamente estas características que Bento mais admirava nela. Não interessava o quê, Capitu sempre tinha uma opinião a dar. O altruísmo das abelhas, o terremoto no Ceará, a última “bola fora” de Hugo Chaves, Capitu sempre opinava. Na maioria das vezes em sentido diametralmente oposto ao de Bento. E Bento adorava isso. Bento adorava discutir e negociar e tentar convencer. Quando insistia muito, Capitu dava-lhe logo uma cortada e isso, em Bento, atuava como um atrativo. Ele tinha que conseguir convencê-la. Se não da opinião, de discutir mais um pouco com ele. A verdade é que Bento nem escutava as opiniões de sua amada, o mover de seus lábios era deveras uma grande tentação.

Foi só quando as amigas de Capitu se interessaram por aquele moço, quase comunista, que tinha em Che Guevara um ídolo não-assumido, que Capitu, agora solteira, começou a olhá-lo com outros olhos. Seus cabelos curtos, seu nariz fino, mas marcante, seu corpo magro e esbelto. Cativante. Capitu admira Bento. Na praia, quando iam juntos, Capitu o mirava, sempre com a cerveja na mão, até que um dia olhou bem para Bento e disse: Você já teve vontade de me beijar?
Bento não acreditava no que escutavas. Nervoso, ainda na sua ingenuidade de menino moço de fora da cidade grande, mas com a safadeza de quem já morou em Juiz de Fora, respondeu: na boca?

Capitu encabulou-se, mas antes que pudesse responder, Bento já a beijava. Num caloroso e simples suspiro de amor, os dois se beijaram por muito tempo e, desde então, não se largaram mais. Amigos vieram e foram. Casais passaram pelos dois e se separaram. Pais. E os dois continuam ali, como se o primeiro beijo, o primeiro suspiro, estivesse sempre presente em seus dias.

Com os amigos, o mais novo casal se consolidou. Os amigos encontraram neles ombros para todas as horas. Bento, companheiro que se preocupa com você e não se apega aos deslumbramentos dos contos. “E você, como está?” Ciumento da Capitu e das amigas que vieram a compor o grupo. Sua irmã mais nova, não oficial, claro, que o diga. Maria está solteira até hoje. Será a madrinha de seu filho. Não que não tenham pretendentes, há. De montão. Um deles já tem o aval de Bento, mas espera o momento certo para declarar o seu amor. Para os amigos e amigas, Bento não é um pai. Não... o pai quer escutar o que v. tem a falar, estimular o debate. Bento está mais para um irmão mais velho. Quer sempre que sua opinião prevaleça e, não importa quem está certo ou errado, está lá para te defender. Normalmente sai com uma amizade, iniciada da maneira mais descrente. No fundo, Bento é realmente um amigo para todas as horas. Amigo para relevar as pisadas de bola dos amigos, amigo para chorar no ombro e amigo para ceder um quarto quando necessário. Amigão do Peito, com letras maiúsculas.

Capitu sabe disso. Ao morarem juntos, a relação dos dois se estabilizou ainda mais. Bento com seu grande coração compreensivo. Capitu com sua vontade de adotar as amigas. A-do-tar. Tomar como filho. Sofrer por elas. Essa é a Capitu. Com as amigas, isso mesmo, só amigas, porque Bento – muito corretamente – não deixa que Capitu tenha amigos – afinal, namorado de amiga, é amiga né?! – Capitu sempre tem uma palavra de conforto para falar, mesmo que seja para discordar ou reprimir. Sempre que encontra as “amigas”, Capitu as fazem sentir as pessoas mais lembradas. “Joãozinho, pensei em você outro dia!”. E ela relembra de um pequeno pedaço de uma conversa insignificante que teve com você há três meses, dando a entender que esteve presente e prestando atenção durante todo o tempo que estiveram juntos. Que todos os detalhes da sua vida importam. Falante, animada, agregadora. Querida Capitu.

Na última viagem que fizeram juntos, Capitu e Bento tinham começado a andar por uma cidade fabulosa, deixando-se levar pela noite, adotando itinerários diferentes, como se não tivessem lugar para ir. Como se o lugar para ir fosse justamente ali. O segurar das mãos. Os dedos entrelaçados. No caminhar pelo castelo de Budapeste, passando pela ponte das correntes, os dois sentaram-se nas pracinhas muito íntimas das crianças para se beijarem, olharem os rituais infantis da pedrinha e o salto sobre um pé para entrar no céu. E foi ali, naquele momento, com o tocar da música local e com o anel na taça de champagne, que Bento, do alto de sua mais formada opinião, perguntou a Capitu se ela lhe daria a sua mão em casamento. Ela deu.

Muitas viagens passaram. Búzios, Mury, Itamambuca, Arraial do Cabo, Iguaba Grande, Iguaba Pequena, Paris, Portugal, Viena. Muitos momentos também. Casamento. Almoços juntos, almoços separados. Chopes. De montão. Os dois sempre ali. Como Adão e Eva, sendo que neste paraíso o vinho é a cerveja. Salve a cevada! Salve Bento! Salve Capitu!

Depois de alguns anos de namoro, Bento deixou de ser tão radical. Deixou de usar as surradas sandálias Kenner para casamentos. Colocou até terno. É o efeito de Capitu. Ou de seu trabalho numa das maiores multi-nacionais do mundo. Capitu, tornou-se mais pé-no-chão. Menos elitista. Isso é cumplicidade. Motivação. Admiração. Amor. A causa de tantos efeitos.

Uma noite no Village Vanguard.

O típico jazz bar americano. Escuro, paredes em verde-musgo - quando possível vê-las atrás das fotos e dos registros das lendas de jazz que ali já tocaram. Hank Mobley, John Coltrane, Miles Davis, o trio do Bill Evans, as grandes lendas que continuam hoje, tanto tempo depois, a ditar as regras e os ritmos a serem seguidos. Dentre os discos lançados, invarialmente se encontra um chamado: "Live at the Vanguard". Tal é a aurea dessa casa.

Uma enorme tuba dourada pendurada na parede completa a decoração.

“No reservation, you can pick a two person table in the end or sit at the bar!” Optei pela mesa de duas pessoas, apesar de ser no bar que ocorrem as típicas noites cinematográficas em um club americano, com direito a cantada e “one night stand.”

O palco fica ao fundo. Um quadrado na parede onde se encaixa perfeitamente uma bateria, um baixo, e, no máximo, mais duas pessoas. Em profundidade, o palco aparenta ser um triangular, talvez daí a razão da perfeita acústica. A garçonete passa: “excuse-me”. Os demais expectadores chegam aos poucos. Expectativa. O meu primeiro show de jazz, logo no berço do jazz americano. O show está previsto para começar às 21:00. São 20:20. O barulho ambiente é de conversas altas e agradáveis. Ao fundo, toca um jazz para aclimatar os que chegam.

Chamo a garçonete, que me diz: “Your waitress will be with you in a second!” Odeio esses lugares, em que os garçons empurram o cliente um para o outro sempre com o receio de atender o cliente alheio. Se você é cliente, você o é do restaurante, não de determinado garçon. Deviam todos servir o cliente que lhe tem demanda. Enfim, a garçonete veio. Uma espécie de Elza Soares americana. Ruiva, com os cabelos para o alto e um pouco dissimulada. Simpática. Trouxe meu vinho. Sob nossos pés, passa o metrô que treme todo o ambiente. O líquido no copo treme, fazendo pequenas ondas que batem na lateral do copo e volta ao meio. Entram os músicos e começa a doce e desconcertada melodia de afinação dos instrumentos. A bagunça organizada. Mas aqui, ao contrário de uma orquestra, não há espala e os instrumentos são em menor número. Nessa noite, um total de três. Piano, baixo e bateria.

O lugar não é o típico lugar turistico. A entrada fica ao final de uma escada de uns vinte degraus. Duas mulheres na minha frente falam de música. Percebendo que eu era brasileiro, comentaram sobre um show que haviam ido. Citaram João Gilberto. 3 japonesas sentaram atrás de mim. Como estão numa mesa ao fundo, presumo que igualmente não tinham uma reservation. A mesa ao lado comenta a qualidade da atração da noite, Jim Hall. Segundo o vizinho, um dos maiores jazz-guitarrist de todos os tempos, a quem, supostamente, ele escutava para aprender a tocar.

Logo na segunda música percebemos que não estava ali à toa. O diálogo de Jim Hall com seu baixista em muito lembrou a obra de Cervantes.

Na quinta música, My Funny Valentine, uma linda introdução da guitarra. O baixo entrou em seguida complementando o som da guitarra. O metrô novamente passa sob nossos pés. A essa altura, já se integra ao show e faz parte de todo o charme do lugar. Depois da composição de Chet Baker, tocou Benny Goodman, Roy Rogers, e, em uma quase homenagem especial, o nosso brasileiro Nelson Cavaquinho, com sua Beija-Flor. Fechou com chave de ouro. Encerrou-se a noite. Para ir embora: o Metrô!